quinta-feira, novembro 24, 2005

PERGUNTAS, RESPOSTAS E OUTRAS TANTAS DÚVIDAS



1.Começo por lembrar os princípios deste blog. Este não é o Blog da Freguesia de UL, mas sim um Blog sobre Ul.Traduz a visão de uma pessoa sobre a sua terra, com todos os relativismos que tal abordagem implica.Apesar de pessoal, não está, evidentemente, fechado a todos quantos queiram confrontar as suas visões pessoais, com as minhas.Eu acho mesmo, que nesta era digital, a própria Junta e mesmo outras colectividades de UL deverão usar a Internet como veículo de informação privilegiado, tendo as suas próprias páginas, com tudo o que considerarem de útil para os cidadãos.Constitui um bom exemplo, o excelente trabalho feito pelo blog de Fajões.Este blog, não vem assim preencher nenhum vazio, a não ser talvez pessoal, e certamente vai coabitar pacificamente com o futuro site oficial da Freguesia de UL e outros que entretanto surgirem.
2.Como referi no manifesto de intenções do blog,não pretendo por este meio, usufruir de qualquer vantagem pessoal, monetária ou política.Não pretendo fazer qualquer carreira política e desde já aviso que qualquer partido que pretendesse contar comigo, arriscava-se sériamente a perder... definitivamente não nasci para isso, mas tenho as minhas ideias políticas.Defino-me como um conservador qb,com algumas "nuances" liberais e uma pitadinha de "Welfare State" .Como podem verificar,não sou totalmente inepto em termos políticos, porquanto esta definição permite-me ir votando em vários partidos...
3.Fonte autorizada, fez-me chegar uma observação sobre a polémica do nome dos rios, que tem toda a pertinência.É possível que, não uma mas várias tradições orais das terras que os rios atravessam, tenham gerado vários nomes para o mesmo rio e que Antuã e UL designem o mesmo rio, que eventualmente terá outros nomes.O "outro rio",um pouco menos afamado, ficou-se com mais escassas designações sendo "Ínsua" uma delas.Esta fonte, questiona-me como se vão resolver estas discrepâncias por decreto? E o leitor que acha?

quarta-feira, novembro 23, 2005

UM SÍMBOLO MARCANTE



Em Oliveira de Azeméis, num jardim das proximidades da Igreja Matriz, encontra-se um monumento deveras curioso e que ninguém, em especial um Ulense, deverá ignorar. Refiro-me ao Marco Miliário da via militar romana que ligava Aeminium/Coimbra a Cale/Gaia, indicando a milha XII. Trata-se de um cilindro granítico, mais própriamente de gneisse, medindo 1,65m de comprimento, por 0,49m de diâmetro, contendo uma inscrição que traduzida, diz mais ou menos isto: Tibério César Augusto Filho do Divo Augusto Pontífice Máximo No ano XXV do seu poder tribunício.
Foi encontrado na demolição da antiga igreja de UL, nos fins do séc. XVIII (1790), incluído depois na parede de uma casa das proximidades, trasladado para a sede do Concelho, onde permaneceu durante muito tempo ao abandono e depois viajando do átrio dos paços do concelho para um jardim fronteiro à Igreja Matriz.
Este monumento é importante porque assinala a passagem da via militar romana em UL e para alguns como o insígne Historiador Oliveirense Dr. Maurício Fernandes, aponta mesmo para Ul (Castro) como a localização de Talábriga, a "cidade encantada dos Pesures", disputada igualmente por muitas outras terras, como a Branca ou o Marnel (Águeda).
Descrito de forma resumida este monumento, por quem, de resto, é apenas um curioso de História, importa tecer algumas considerações, de índole menos factual e mais subjectiva.
Primeira questão. O que faz um monumento histórico de Ul, em Oliveira de Azeméis? Resposta única: Está em Oliveira e está muito bem! Primeiro, se repararam na descrição, os nossos antepassados trataram este monumento de uma forma grosseiramente ignorante e haveria que o proteger dos Ulenses! Quem já leu artigos sobre a História de UL, como a do Padre Domingos Arede, deve ter ficado estarrecido, com a abundância e riqueza dos achados arqueológicos do Castro e que pura e simplesmente desapareceram, pelo menos da vista dos Ulenses! Segundo, não há um Ulense que não tenha orgulho de pertencer à família Oliveirense, de ser um Oliveirense! Por tudo isto, eu prefiro pensar que estamos perante um caso de generosidade de Ul, para com a restante família Oliveirense, estando o monumento num local que, teoricamente, lhe confere mais visibilidade! Mas atenção, falta talvez uma breve inscrição nas vizinhanças do marco, que seja uma espécie de BI e no qual constem também duas letrinhas: UL.
Segunda questão.O que sabem os cidadãos, em especial os Ulenses, de tal monumento e que importância lhe atribuem? Aposto que se fizessem um inquérito aos nossos alunos das EB e afins, sobre tal monumento, decerto teríamos respostas bastante criativas, do género, ter sido encontrado durante a edificação do Gemini ou ter sido um dos postes da primeira baliza da UDO!
Para muita gente do povo "aquilo" é apenas um pedregulho com uma forma particular.Foi decerto isto que pensaram os Ulenses que o usaram apenas, como mais uma pedra, na construção de uma casa e supostamente o "serraram" parcialmente, com outros intuitos utilitários, menos nobres. Ao marco da milha XII da via militar Romana!
Num registo menos sério, há até quem lhe realce outras facetas, dizendo que "o perfil e posição do monumento diz tudo, os golpes profundos que ostenta na base, não foram suficientes para esmorecer a postura e abalar o carácter pétreo da coisa..." e metendo Freud ao barulho, sustentam que "o próprio Sigmund se tropeçasse em tal coisa, teria inquirido, se durante a sua descoberta, não teriam sido negligenciados dois outros achados satélites junto à base..."
E concluem com uma sentença lapidar " com este marco, são enaltecidos os Ulenses e seus antepassados, quer sejam Pesures ou não..."

ALGUMAS NOTAS DISSONANTES SOBRE OS RIOS E LUGARES DE UL
1- OS RIOS

Já se sabe as confusões que por aí grassam sobre o nome dos rios que passam por UL, ninguém tendo a certeza qual é o Antuã e o UL. Não pretendo, com é óbvio, resolver definitivamente a questão, porque não tenho a autoridade histórica e científica para o efeito.Percebo que uma tradição oral nem sempre esclarecida e o típico costume bem Português de ler os documentos na diagonal (o único povo do planeta que tem esta estranha capacidade hermenêutica), tenha gerado este imbróglio.Concordo por inteiro com a decisão que a Câmara Municipal de S. João da Madeira, tomou sobre a matéria que também lhe diz respeito, ao encerrar o assunto, não sem alguma polémica, atribuindo o nome UL ao rio que atravessa essa Cidade e que passa por UL no lugar do Cavalar.Baseou-se esta decisão em pareceres sustentados por vários Académicos, designadamente da Universidade de Aveiro.Ora como os rios só devem ter um nome e este é o mesmo rio que atravessa UL a poente, então o rio chama-se UL e o outro que o percorre a nascente, Antuã, o qual recebendo as águas do UL, nos "dois rios", viaja tranquilamente até à ria com o nome Antuã. Certo? Se o Instituto de estradas de Portugal, persiste na "burrice" de chamar Ínsua ao Antuã, como é visivel na ponte da IC1 em Macinhata, baseada em imprecisos mapas militares, que como é sabido têm por finalidade localizar tropas inimigas, o problema é do IEP...
A minha formação assenta principalmente em princípios científicos, no pragmatismo e no bom senso.Se a decisão da Câmara de S. João tem sustentação lógica e acabar com esta barafunda, tem o meu apoio!
2-OS LUGARES
Os tempos actuais são de ruas com nomes significativos e com numeração à medida. A toponímia avançou em UL e ainda bem, desde que subjacente ao acto, não esteja aquela ideia deplorável de mimetizar os padrões urbanos, num tecido caracteristicamente rural...
Não se mata a alma dos lugares, num decreto toponímico.Há aqui um "Link" ao lado, que nos conduz à página das escolas de UL, na Internet. Ora bem, os meninos, pelos vistos, nunca ouviram falar do lugar da Areosa e de Porto de Vacas...querem ver que este escriba passou quase 30 anos a escrever o seu endereço errado?!
As senhoras professoras têm que ensinar aos meninos que os nomes dos lugares são fruto de uma tradição oral, algo que passa de boca em boca, de geração em geração.Em casos raros, como é o caso da Rua Direita, o próprio nome já está mais tipificado e tem um significado mais preciso, sobrevivendo aos devaneios da população...
Ora, de tradição oral de UL, sabem os Ulenses e não figuras pseudo-importantes de outras latitudes...
Portanto Areosa existiu mesmo, este nome deve constar algures nos arquivos da Universidade de Coimbra...
E Porto de Vacas? Qual é a terra que se pode dar ao luxo de prescindir de um topónimo tão rico e sugestivo?
Só UL!. SOUL!

domingo, novembro 06, 2005

OS SÍMBOLOS DE UL
Um aspecto fundamental da identidade de uma terra é a sua símbologia.
UL tem os seus próprios símbolos, que de seguida se descrevem.
Orago - Santa Maria
Área - 4,7 Km2
Ordenação heráldica do brasão e bandeira
Publicada no Diário da República, III Série de 29/10/1993


Armas - Escudo de azul, duas pás de forno de pão, de ouro, passadas em aspa, acompanhadas em chefe de uma estrela de cinco raios de ouro, em contra-chefe de uma mó de moinho de prata, à dextra de uma espiga de trigo de ouro e à sinistra de uma espiga de arroz de prata, em ponta, cinco faixetas ondadas de prata e azul. Coroa mural de prata de três torres. Listel branco, com a legenda a negro, em maiúsculas : " UL ".

Símbologia
A mó de moinho - Desde tempos imemoriais que esta terra tem tradições de moagem. Os célebres moínhos de água, ao longo dos rios Antuã e Ul, estiveram na origem das modernas indústrias de moagem de cereais e descasque de arroz.
Espigas de Trigo e de Arroz - À volta destes cereais, os ulenses têm sabido colher sustento e progresso.
As faixetas onduladas de azul e prata - Representam o rio Ul.
As pás de forno de pão - O fabrico tradicional de pão cozido em forno a lenha, em Ul, adquiriu fama pela sua característica e qualidade.
Estrela de cinco raios - Por ser padroeira desta terra, Santa Maria de Ul (Nossa Senhora da Assunção).

Bandeira - De amarelo, cordões e borlas de ouro e azul. Haste e lança de ouro.
Bandeira para hastear em edifícios (2x3)


Estandarte para cerimónias e cortejos (1x1)




É importante conhecer e divulgar os símbolos de UL, que são realmente representativos da História e tradições da nossa terra.

Resumidamente, a cor dominante é o amarelo do trigo dourado, e as cores de contraste são o azul dos rios e o branco da farinha e do arroz.
Realço este aspecto, porque há anos, quando se pretendeu escolher as cores do equipamento da equipa de Futebol da terra, ninguém se lembrou das cores reais de UL , havendo até quem, numa célebre reunião, tivesse sugerido a adopção do "bordeau"...
É o que eu digo, a ignorância pode ser crassa, mas o humor não falta aos Ulenses...

LUGARES DA MINHA TERRA
3- A BARRETA
A Barreta é actualmente um minúsculo e inóspido vale, quase abandonado, mas foi outrora um lugar mítico e de gratas recordações para muitos Ulenses.
Porquê o nome Barreta, para esta região limítrofe da freguesia, partilhada com Travanca, pelo rio Antuã?
O Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora, 6ª Edição, define Barreta como "barra pequena, apenas acessível a barcos costeiros".
Barra?! Barcos costeiros?! mistério...
Ora digam lá que os nossos antepassados, não tinham imaginação e sentido de humor?!...
Descontando a peculiaridade do nome, afinal o que é a Barreta?
A Barreta é, vista do céu, uma curta pincelada de verde.Duas suaves vertentes, densamente arborizadas, encontram-se num ribeiro sinuoso, que desde sempre, ostentou com fidalguia, o epíteto de Rio, nunca ninguém atinando com o seu nome, umas vezes Ínsua, outras Ul e agora, parece que, mais ou menos oficialmente, Antuã.
Outrora, o rio era de águas cristalinas, "que quase se podia beber", pelo menos até ao moinho do João do Paço, onde, ali por perto, desembocavam as nefastas descargas dos Lacticínios.
Nos anos 60 e 70, era possível ver os peixes, de várias espécies e tamanhos, saracoteando-se alegremente nas águas e em certas alturas, era um privilégio, assistir-se a um número de acrobacia piscícola, quando por altura da desova, certos peixes, vinham do mar, subiam as correntes e pulavam de forma grácil e eficaz, os sucessivos açudes...para já não falar, de outras espécies aquáticas, como os girinos e as rãs, com o seu coaxar característico, despertando, com as suas cores, movimentos e sons, a quietude do lugar.
As terras bordejando o rio, eram cuidadosamente cultivadas com milho e outras espécies hortícolas.Nas margens do rio, abundavam os choupos e também as videiras de morangueiro, formando belas ramadas que contribuiam com prazenteiras sombras e um odor magnífico, para actividades como a pesca, os banhos ou a simples soneca...
E, claro, lá estava, o famoso açude da Barreta, piscina e praia de muitas gerações...
Para completar o quadro, outro prodígio do engenho e querer do nosso povo: o moinho.Lá em cima, na fronteira com Macinhata, havia o moinho do Pego.Descendo a corrente, havia um belíssimo moinho, no lado de Travanca, ao qual os Ulenses acediam, por uma periclitante ponte de madeira...
Descendo, um pouco mais o rio, chegava-se ao açude, onde se iniciava, uma graciosa levada, ornamentada com a inevitável ramada e que servia o célebre Moinho do João do Paço, sem que antes as suas águas, emprestassem uma outra utilidade ao lugar, a de servirem de lavadouro de roupa, a muitas mulheres das redondezas.O moinho do João do Paço, sobrevia altivamente, com a sua pétrea e elegante silhueta, ao cheiro costumeiro dos efluentes industriais, que ali perto, castigavam injustamente, o rio...O moinho, não era o único resistente, ali perto, havia uma colónia de Lontras, as únicas que tive o privilégio de conhecer, no seu meio natural... O moinho e as Lontras, ensinaram-me uma das lições mais marcantes da vida, a de que a beleza, não está nas coisas, mas sim no olhar de quem as vê...
No seu caminho para o mar, o rio, qual dançarino, descreve então duas curvas, a primeira alcunhada "a toca", local estratégico para a pesca e a segunda mais ao fundo, antecipando a entrada na ponte do Avelão.

E hoje, como é a Barreta?
Fui lá hoje de manhã e não fiquei surpreendido. As terras agrícolas, transformaram-se em matagal desordenado onde reinam as silvas.O rio, envergonhado dos maus tratos que lhe infligem, escondeu-se atrás da muralha de arvoredo e deixa-se arrastar, tristemente pelo seu leito...do moinho do meio e da sua ponte de madeira, nem sombras.Está lá o solitário açude, sem nenhum préstimo, pois os banhos de trampa não são populares...
A levada,cujas ruínas são evidentes, conduz um silencioso fiozinho de água, até ao moinho em desuso, que entretanto foi comprado por um particular, que logo cuidou de o vedar.
Não deixei de sorrir, quando avistei do lado de Travanca a colina, à espera de construções, que decerto vão ter uma vista esplendorosa e um odor simpático...
Também reparei numa contradição do lado de UL. Chegou a estrada a este lugar esquecido por Deus e abandonado pelos homens!
Ou seja, qualquer dia, estamos a fazer concorrência a Travanca, nas construções mais coloridas e "prafrentex", com vista para o Vale da Barreta...




sábado, novembro 05, 2005

LUGARES DA MINHA TERRA
2-A ESTAÇÃO






A Estação como lugar, não existe e na verdade, nunca existiu.O local onde ainda hoje se encontra a vetusta Estação da CP, mesmo ao lado da desaparecida fábrica de serração "A ULENSE", teve Areosa como nome de baptismo.Do lugar Areosa, fazia ainda parte um prédio, propriedade da família Marques Pinheiro, que ainda hoje resiste, com a sua fachada original, austera e antiquada, uma espécie de colmeia de habitações, com um armazém e uma "loja", no rés-do-chão.O termo "loja", habitualmente designa os espaços comerciais "multi-usos" das terras pequenas, do qual fazem parte a Mercearia e a "Tasca" e às vezes outros componentes, como a Barbearia, a sala de jogos (cartas e/ou matraquilhos), o Telefone e a venda de gás.Como é hábito, a loja ostenta o nome do proprietário.Só na estrada que liga Areosa à Igreja, contavam-se em tempos, cinco destas lojas e ainda hoje, persiste, uma ou outra, com novas roupagens: Silva, Libras, Beato, Raimundo e Severino.Mas existiam, mais de uma dúzia destes típicos estabelecimentos, por toda a freguesia.
Nesse prédio, situado em frente à Ulense, não podia faltar a tradicional "loja". De todos os proprietários desta loja, o mais carismático, foi, sem dúvida, o saudoso Sr. João Almiro Silva, homem de grande valor, que começou a sua actividade profissional em UL, como chefe de Estação da CP e nas décadas de 70-80 chegou a ser Presidente da Junta. Nas décadas de 60 e 70, a "loja do Silva", recebia autênticas multidões, facto digno de nota para a época e sem paralelo noutras terras com a mesma fisionomia. Muita gente que utilizava o comboio, e até muitos, que a pé ou de bicicleta, usavam a própria linha do caminho de ferro, ou o caminho do Serro, para vencer a curta distância que separa UL de Oliveira, pessoas que trabalhavam na Ulense, vindos de vários lugares de Travanca, de Palmaz ou do Pinheiro, por qualquer razão, paravam na loja do Silva, mercearia de referência, e onde o vinho maduro gozava de uma fama assinalável.
As três entidades -A loja do Silva, a Ulense e a Estação- formavam, de facto, uma única realidade, a alma do lugar, não sendo de estranhar que o mesmo destino, foi também, por eles partilhado.Hoje a loja existe com outros donos, com um ambiente e serviços mais adequados aos novos tempos, e continua, decerto, a ser apreciada por muitos.Mas já não é a loja do Silva, e isto diz tudo...
A Ulense, outrora um dos orgulhos de UL, sucumbiu de morte natural, após alguns anos de marasmo, não sobrevivendo à modernidade e aos seus novos paradigmas.Hoje só se identifica o solo, onde se erguiam os escritórios, os pavilhões e os estaleiros.Quem tiver fotografias, que as guarde...Os outros, que como eu, passaram grande parte da vida naquele local, podem usar a memória para ver de novo os muros, o velho portão grande, ao pé do qual se erguia uma árvore imponente, talvez um Carvalho, que formava um chapéu formidável no Verão e no Inverno, uma espécie de estádio coberto para uns toques de bola e onde se pendurava um Judas por altura do Entrudo...
Se fecharem os olhos e se concentrarem mais, podem ainda dar uma mirada no interior, nas máquinas, nos fornos, nas tabuinhas cuidadosamente empilhadas e até ouvir de novo a sirene assinalando o meio dia...
Às vezes, ainda pressinto o seu vulto fantasmagórico, quando à noite, passo de carro, pela Estação...
Imagens visuais e sonoras, da MAN ou da "pequenina", camionetas "de guerra", guiadas pelo meu pai, a subir a estrada, que do "largo do Rojão" , levava à Ulense, são dificeis de esquecer.Até, porque às vezes, este escriba, então com 5 ou 6 anos, tinha o privilégio de viajar no lugar do ajudante...
A Estação da CP, era tão importante para UL e para as terras vizinhas, que ali escoavam para os grandes centros, os seus produtos, desde coelhos e galinhas até lacticínios. Era o transporte por excelência, com destinos tão díspares como Oliveira de Azeméis e Viseu e com finalidades tão variadas, servindo trabalhadores, estudantes ou pessoas comuns por simples lazer, como ir à praia a Espinho, à festa das fogaças à Vila da Feira, ou ainda, ao Futebol...
Mas realmente espantoso, era o fluxo de gente, em Fevereiro, nas festas de S.Brás, de tal magnitude, que obrigava a CP a utilizar comboios especiais e a fazer vedações com travessas de madeira, nas imediações da estação para conter os borlistas...
Falar da Estação e esquecer as pessoas que lá trabalharam, não faz sentido.Fazem parte desta história, o falecido sr. José Delgado, meu padrinho de baptismo, um prestimoso auxiliar, pau para toda a colher, desde mudar as agulhas, até cuidar do jardim.O saudoso sr. Forte, fazendo juz ao nome, capataz com funções mais abrangentes ao longo da linha.E claro, o Chefe, ao tempo, o Sr. Correia que vivia com a sua família na própria estação.Lembro-me bem, ainda miúdo, de passar horas, a arrancar as ervas daninhas, que estragavam o jardim a cargo do zeloso Sr. Delgado, que o preparava para o concurso de jardins, organizado pela CP. Nunca cheguei a saber, se tal trabalho foi alguma vez premiado, mas no meu íntimo acredito, que quando se vence o esquecimento das coisas boas, nunca se perde...
E o "Farrusco", que dizer da nostalgia que provoca, a visão dessas máquinas de porte imponente, marcando com o seu arfar sincopado, o avanço imperial sobre o ferro dos carris ? E dos poderosos sons, emitidos por estas máquinas a vapor, tão característicos que marcavam o compasso da vida quotidiana, mais que os poucos relógios que havia na época...eram dez horas, porque se fizera ouvir, de forma clara e distinta, o comboio das dez...
A estação, qual anciã de 90 e tal anos, também morreu de morte natural.A persistência da circulação de alguns inestéticos e lentíssimos comboios "modernos", na Linha do Vale do Vouga, já amputada de troços históricos, é que constitui a situação anormal, um verdadeiro anacronismo, numa época de TGVs!...
Felizmente, tal como Lázaro, a Estação de Ul, teve uma segunda oportunidade de continuar a existir, amplamente renovada mas com a mesma traça original, e com outra finalidade, a não menos nobre arte da restauração, obra pensada e levada adiante por um Ulense , que se saúda, porque deu o justo valor a um verdadeiro ex-libris de UL. E, pensando bem, Refúgio del Rey, até que é um nome que honra a história do lugar, porque exige qualidade e não fora o primeiro troço da linha do Vale do Vouga inaugurada por El rei D. Manuel II, no remoto ano de 1908...
Estação era o nome, pelo qual, Areosa era mais conhecida.E ninguém estranhava ou levava a mal, afinal,todos nós temos vários nomes ou apelidos ...
Curiosamente eu penso que o nome Areosa, embora relativamente comum noutras paragens, no caso de UL teve origem num largo que havia junto à estação da CP, e que era conhecido entre a garotada por "Areia" e onde se jogava umas renhidas partidas de bola, do tipo "muda aos 5 e acaba aos 10"! Nós, os da terra e também os trabalhadores da Ulense, imagine-se, no intervalo do almoço!...
Durante muito tempo, o lugar da Estação, foi o centro físico do meu mundo e imagino que também em volta dele gravitaram os sonhos de outras pessoas.
Esta é uma visão necessáriamente pessoal, de quem passou a infância e grande parte da juventude, naquele modesto lugar.
Guardo na memória estórias impublicáveis, mas não resisto a usar o humor do Sr. Silva, para ilustrar um pouco, o ambiente festivo do lugar.
Aos clientes mais antigos e com quem tinha grande confiança, o Sr. Silva cumprimentava, frequentemente, com a expressão "Sr. chefe geral das putas !" Ninguém levava a mal e era uma risota geral! Mas mais ainda, quando à loja assomavam cavalheiros de aspecto mais sério, provenientes de outras paragens e a quem o impagável Sr. Silva cumprimentava: "Sr. chefe geral"!...

terça-feira, novembro 01, 2005

LUGARES DA MINHA TERRA
1- O VALE DA AZEVINHEIRA







Apesar de ser uma terra pequena, UL tem recantos remotos e escondidos da maioria dos habitantes. A natureza, criou alguns lugares dificilmente habitáveis, como é o caso do vale que ladeia o Castro a poente.
Muita gente da freguesia, já passou uma vez ou outra, por curiosidade ou recreação, por este sulco profundo entre o monte do Castro e a encosta da Moura, ao qual o povo chama de Azevinheira, e no qual corre, sem pressa, num murmúrio ciciado, o rio UL.Todos têm na memória, os açudes, as levadas e os moinhos,escondidos na densa vegetação de Choupos, Carvalhos, Pinheiros e Azevinhos...
Mas para sucessivas gerações de moleiros, que demandavam, dias e noites, os moinhos, construídos nas margens do rio, aqueles lugares rústicos, servidos por caminhos pedregosos e lamacentos, rasgados em íngremes encostas, eram mais que uma forma de vida, eram, no limite, a própria vida.Nos moinhos, moía-se o trigo e outros cereais e na dureza das tarefas, também se ia moendo, se calhar, a própria vida...
A ideia de reconstruir os moinhos parece estar alicerçada numa lógica inatacável.Utilizando um chavão Histórico, pode-se dizer que conhecendo e preservando os valores do passado, pode-se compreender melhor o presente e preparar com proveito o futuro.Importa não transformar o restauro dos moinhos e a edificação do conjunto museológico dos moinhos e do pão, num simples postal turístico e num chamariz para negócios de ocasião, um "resort" para as elites, ficando a população de UL, na última fila a aplaudir.Há que melhorar os acessos para que as pessoas simples de UL, e não apenas os JEEPS dos VIPS, possam aceder a esses locais e contactar com o modo de vida dos seus antepassados. Só assim se constroi e reforça a Identidade de uma terra.É pena terem sido introduzidos elementos estranhos aos moinhos tradicionais, como as pinturas, mas, enfim os moinhos têm proprietários e há que respeitar as suas opções estéticas...
Uma ideia final para tentar explicar o inexplicável.Por que é que se gosta da nossa terra, e quando falamos dela, ela é sempre bela e única?Quase todos somos assim. As outras terras podem ser bonitas, mas a nossa terrinha...
Os relativismos modernos matam qualquer teoria racional sobre a beleza das terras.Há tempos atrás, ouvi dizer a um colega meu do Porto, "aquele buraco" referindo-se a uma terra vizinha da minha, que por acaso, ele visitou.Embora não fosse daquela Terra (Madail), senti vontade de o esganar.Pode-se tentar perceber, para um "queque" da FOZ, o passeio alegre e o molhe são a marca de um certo estilo de vida...mas daí a achincalhar outros lugares que não se enquadram nos nossos padrões...
Esse "betinho", jamais poderá compreender, o que senti numa manhã de Primavera, quando contemplei do alto da Moura o mesmo vale que agora percorri numa manhã de Outono, como se de um único momento se tratasse.

quinta-feira, outubro 20, 2005

tULices
(Gramática à parte...)


A nova junta tem no seu programa eleitoral, o projecto de um jardim público junto ao cemitério, presumivelmente num terreno cedido pelo Sr. António Rodrigues.Será seguramente uma boa obra, para uma terra que não tem um espaço dessa natureza.
Não discutindo, a bondade e necessidade de tal obra, permito-me ter a ousadia de pensar um pouco diferente. Existe em UL um local um pouco esquecido mas que tem todas as condiçoes para ser estratégico para o desenvolvimento da terra.Refiro-me à mancha verde que ladeia o rio UL, entre Porto de Vacas e a Ponte da Igreja.A nascente, é uma extensa área plana, de campos agrícolas, que se continua com uma arborizada encosta suave até ao rio. A poente do rio, trata-se de uma vertente florestal, que só termina nas cercanias de Adães.Para além da topografia e beleza espectaculares, esta região é um centro perfeito para unir as duas margens do rio e tornar UL, numa freguesia realmente una e solidária, funcionando o rio como iman, afinal o mesmo rio que lhe deu vida.Adães e outros lugares poente da freguesia, estão incrivelmente perto da nossa Igreja Paroquial, mas a barreira natural do rio, cavou uma divisão de séculos, muitas vezes amplificada por querelas e questiúnculas de lana caprina.Mais do que corrigir o erro mais comum da terra, que é falar "do lado de UL e do lado de Adães", importa, com inteligência e honestidade, reflectir nas origens deste disparate e como ele se tornou um legado para sucessivas gerações...
Mas, para uma terra com muitas carências, importa ser-se pragmático e tentar resolver aqueles problemas que mais directamente afectam o quotidiano das pessoas: a água, o saneamento básico, os arruamentos.Trata-se de um facto natural, mas que está prevertido, ainda, por um individualismo excessivo, que faz com que a maioria das pessoas só se interesse pelos seus problemas e não os da comunidade: A água na sua casa, o arranjo da sua rua, etc...além disso, o egoismo junta-se à mais pura inveja - "uma rua explêndida para ti e um caminho remendado para mim", "queres é uma ponte para te servir melhor!..."
Por isso, novos projectos onerosos, como Pontes, são vistos com desconfiança e tendem pura e simplesmente a ser depositados no limbo, onde jazem muitos idealismos. Bem sei...Coisas megalómanas...
É preciso realçar que a mancha verde, teria que forçosamente continuar a ser...mancha verde, só que, com vida!
Uma Ponte num sítio estratégico, com um rio limpo e moinhos de pé, duas margens planeadamente
arborizadas, terminando num jardim amplo, espécie de centro cívico da terra...
Acredito, que um dia, alguém se vai lembrar desta ideia e quem sabe, fazer dela um projecto e depois uma realidade.
Antes que a lógica do construir sem ideias, irrompa por um dos últimos santuários naturais de UL...

quarta-feira, outubro 19, 2005

UL ALDEIA PARA SEMPRE!

Um sinal dos tempos: todos querem a sua terrinha, cheia de "prédios", com todas as marcas das grandes urbes. A Farmácia, o Hospital, o Centro de Saúde, o Ginásio, o Supermercado, a Discoteca e até a TV por cabo! Quem ousa pensar de forma diferente ou é retrógrado ou idealista.Pensemos por um momento no absurdo da coisa.Na Matemática há uma demonstração clássica - a redução ao absurdo- que pode servir de introdução ao tema do desenvolvimento regional. Imaginemos o Concelho de Oliveira de Azemeis com as suas dezanove freguesias, todas a desejar o mesmo - aqueles items do progresso já referidos antes. Nada mais justo e lógico, argumentarão muitos. Porque não ?!- esgrimirão outros.Ora, grande parte desses serviços derivam dos dinheiros públicos, já de si bastante depauperados, que como é óbvio não chegam para tudo e todos. Instala-se então a lógica da pressão das terras com maior poder decisório - votos e fábricas - sobre o poder central e municipal. Geram-se então rivalidades e antagonismo entre as freguesias "descriminadas" e as "abonadas".Dinâmica de progresso !- aventarão os cínicos.
Descalabro, fragmentação, egoismo e estupidez, digo eu!
Voltando agora à célebre demonstração por redução ao absurdo. Tudo bem, num golpe de mágica, Sócrates transforma o déficit em superavit, descobre-se petróleo na Cova da Moura e de repente, há dinheiro a jorros. As terras ficam com tudo o que pedirem, S. Roque igualzinha a Cucujães, Nogueira a "cara chapada" de Fajões e Loureiro o rosto "escarrado" do Pinheiro.Viva a Uniformidade! Ruas alinhadinhas com prédios de 3 e 4 andares e muitos carros nas rotundas porque isso é progresso!
Já viram a paisagem toda igual, com zombies urbanos e rurais, fundidos num novo estereótipo, o suburbano do 3º milénio!
Bem, estes fenómenos são inevitáveis, reproduzindo-se à escala planetária, práticamente sem interrupção desde a revolução industrial, adiantarão os realistas.
Discordo frontalmente deste determinismo fatalista.As terras são o que são. Ul, por exemplo está encostadinha a Oliveira e por isso não precisa de supermercado, Hospital e até Farmácia! Macieira de Sarnes, idem em relação a S. João da Madeira (ou querem pedir aquele povo que venha fazer compras às médias superfícies de Oliveira e ver o UDO ?).As terras devem ser complementares e ter a sua marca típica.
Ul precisa de um plano director que lhe preserve a alma de terra sossegada e de gente tranquila, ou seja muitas zonas verdes e construção tradicional criteriosa, que fixe as populações jovens originárias de UL. Há que evitar a todo o custo, que UL, se transforme num dormitório da sede do Concelho, habitada por gente que não é de UL e não sente UL.Isto, evidentemente, sem transformar UL, num deserto como parece actualmente, devido á inexistência de terrenos disponiveis para construção e na não-aposta na recuperação das habitações tradicionais existentes.
Como será UL daqui a 100 anos? Se for uma terra igualzinha a S. Roque (sem menosprezo para essa magnífica Vila), todos falhamos...
Se for a terra do pão de Ul, com vales verdejantes abraçando os rios, expurgados das moléstias que têm hoje, com os moinhos de pé, com praças e outros espaços verdes, com uma ponte unindo verdadeiramente as margens nascente e poente da freguesia e sobretudo com gente que ama UL, então valeu a pena...
Ul será Aldeia para sempre!

QUANDO A POEIRA DOS VOTOS ASSENTAR
















Há duas semanas os Ulenses foram a votos para escolher os seus representantes para a Assembleia de Freguesia, Assembleia Municipal e Camara Municipal.
Após uma campanha animada, o PSD ganhou a Junta o que vem sendo hábito, com uma única excepção, há 8 anos, quando ganhou Carlos Afonso pelo PS.
É também um hábito da nosso País, quase toda a gente cantar vitória, às vezes, mesmo perante as derrotas mais constrangedoras.
A verdade, porém, é que votei na lista do PS, composta na sua esmagadora maioria por "independentes", da "área" do PSD, e portanto, considero-me um genuino derrotado da noite eleitoral de 9 de Outubro.
Apoiei a Lista supra-citada, por variados factores.Primeiro os sinais. Pessoas que merecem o meu crédito pela sua competência profissional, honestidade, dedicação e Amor a UL, não se revendo no unanimismo oficial (nas últimas eleições só concorreu o PSD), decidem avançar com uma lista alternativa, para debater ideias e projectos e apresentar soluções para os problemas da Terra. Enfrentando todas as críticas e conscientes de todo o risco para a vida pessoal que as coisas da Política têm subjacente, foram em frente, assumiram a sua cidadania em pleno.Em segundo lugar, para mim era claro, que se não aparecesse outra lista, não iria votar, pois não iria sancionar o unanimismo, o "lambe-botismo" e o marasmo que assentaram arraiais em UL, nas últimas três décadas.Apesar de viver em Loureiro, com a "fronteira" de Ul práticamente na minha porta, dei por mim a pensar, nos últimos tempos, que não basta dizer que se nasceu em UL, terra do pão e dos moleiros e padeiras que lhe dão forma, do S. Brás, dos rios outrora belos e da "mística" do velho Futebol de UL, que viveu sempre na rua, mas que nem por isso deixou de ir ganhando, à escala pequenina dos nossos sonhos...
Mas o factor decisivo para mim é que querem instalar um regime Feudal em UL!
Falemos claro. O Sr. António Rodrigues merece todo o meu respeito, admiração e gratidão. O que ele construiu e vai construindo na sua vida pessoal e profissional, só está ao alcance dos grandes Homens. O que ele fez por UL, nunca poderá ser esquecido.É uma referência incontornável da História de UL.Muito sinceramente, só tenho razões para o admirar, começando pelo simples facto de proporcionar emprego a muitos familiares e amigos meus.Mas há uma razão ainda mais forte para esse respeito que nutro por ele.É que ele ficou em UL, quando era moda sair de UL, para construir bonitas casas em lugares "chiques" e certamente mais cosmopolitas.E ele bem que podia...
Agora,não me parece que ele queira ou goste de ser um Senhor Feudal.Mas acontece que algumas mentes pequeninas tudo fazem para passar essa mensagem e colocar UL, o futuro de UL nas maõs dessa Pessoa.É um insulto à inteligência dos habitantes e para além do mais, não deve ser confortável para ele arcar sozinho com essa tarefa...O Homem tem família e vida para gozar! Pois esse argumento foi o mais usado na campanha para justificar o voto no PSD, partido de que é reconhecidamente militante...
Quando a poeira dos votos assentar , todos, Junta e oposição, vão dar o melhor por UL.
Todos contam.Todos unidos no essencial - o amor por UL- não serão demais!